quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ZUT - UMA AVENTURA DA LINGUAGEM






ZUT – UMA AVENTURA DA LINGUAGEM

                                                                                               Aidenor Aires*



Há muito tempo venho acompanhando a aventura poética de Wilmar Silva ou Djami Sezostre. Para ler a poesia de Sezostre não se pode olhar parado, a partir de um ponto no alto, embaixo ou dentro. Seu (não) verbo instaura uma cena de signos multívocos, onde se amassam, se entranham, sem cercas ou horizontes.
            Nada que aprisiona, tudo que liberta. Em seu trabalho de estranheza singular, uma torrente que captura a totalidade dos sentidos, sem conter em cada um deles sua plenitude comunicativa. Em ZUT o poeta exorciza o discurso, a dicção e segue construindo (destruindo) o que sempre foi belo e consentido.
            Seu campo de exercício é o processo genético da linguagem. Inconformado com as limitações expressivas das palavras com sua carga de sentidos com/sentidos, ousa em desafios à ordem e à semântica. Recria seu próprio, silabário, vocabulário, fremente e instável, aventurando-se num mergulho até os embriões da linguagem.
Ao fragmentar o sacro edifício das palavras, talvez busque o momento primordial do silêncio, dos grunhidos, dos uivos e esgares. Visita a primitiva sintaxe de silêncio, onde dormitavam os signos primais dos gestos, dos gungunados, dos silvados, dos sons emitidos com dor, alegria e espanto, aprisionados em bocas rudes.
            Sob este aspecto seu texto é pura ousadia de formas quebradas e convoca o leitor de percepção plural a juntar fragmentos, amealhar possibilidades múltiplas de significações, participando do artesanato libertário que manipula descobertas verbais, interfaces idiomáticas, oferece sugestivos jogos e cativa os sentidos do leitor em vertiginosa viagem fractal.
            Muitas abordagens se poderiam armar no só edifício armazenado em seu grafismo poético. Ultrapassa a semântica unívoca ou meramente metafórica para inventar espaços, deslizamentos e ambiguidades de oráculo. ZUT não é somente um campo de exercício dramático e lúcido do poeta. É uma dádiva à consciência criativa do leitor/mirador/ouvinte/tátil e saboreante.
            A abordagem do texto que, em dado momento, pode se denominar leitura, não admite passividade. Todos os sentidos, mais a imaginação e a inteligência, são cativos para extrair sentidos, conferir significados, abandonando tudo o que sabia da poesia e da linguagem. Há momentos em que se quer ser criança e jubilar-se com sons inaugurais, gozar as primeiras silabas no prazer de executar o inocente instrumento da fala.
            Não se pode ler ZUT para conhecer um poeta e sua linguagem. Aqui tudo é inaugural, é desafiante e múltiplo. Infinitos poetas rabiscam papiros, tablas e écrans quando Djami Sezostre entrega sua missiva impessoal dirigida a uma geografia ainda por descobrir-se.
            Se o leitor pode atravessar a treda floresta da linguagem escrita, precisará de renovadas ferramentas para divisar o lado vertiginoso de sua performance corporal, onde Sezostre se entrega ao gestual, ao clamor cardíaco, à simiologia eloquente, à voz que entoa extreme as fronteiras entre o canto e a fala, entre o silêncio e o vagido.
            Na leitura sonora dos poemas Sezostre canta orfeônico, gregoriano e mântrico. Seguir sua arquitetura linguística nos aproxima de tantas vocalizações caras, felizes ou doloridas do ser humano. Difícil é comentar um aspecto em separado desse poeta múltiplo. A possibilidade compreensiva de seu trabalho só pode ser defrontada em sua complexa atuação de performer original.
            Seu texto/contexto não invoca apenas a dimensão da linguagem perceptível, nem sua humanidade inclusa, palpitante.  É preciso acolher sua construção imagética, onde o poeta se dá em vocabulário carnal, o corpo e a alma, capaz de pertencer panteisticamente a um universo de árvores feridas, bichos sofridos, terra e água. Areias, galhos e animais se misturam a uma herança de memória do chão, da casa, da família.
            A arte de Sezostre cresce em sua expressão multitudinária. Tudo que digo, nesta breve e simples abordagem, nada diz dele. Talvez todas as tentativas de recepção acabem por ser uma traição. O expectador tem sempre a última palavra, sua liberdade de conhecer e sentir. Estou certo de que ZUT reúne o mais alto acervo de sua invenção. Destaca-se como desenho original na poesia brasileira, ecoando diferente das mais descoladas experiências da linguagem.
 Embora dono de tão ampla linguagem, de tão inusitados recursos, de tão pungente clamor por comunicação e encontro, de uma certa forma é uma voz que clama na multidão e no deserto e, com certeza, segue cantando, indiferente e completo, como fala e canta, aos homens e ao mundo, poesia.

*Aidenor Aires, poeta, de Riachão das Neves, BA. Mora em Goiás, onde vive e escreve.




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017





MPRÓDIGO

Minha mãe,
traga a candeia
de azeite
que me aclare
e alumie
a cama
em que me deite.

Minha mãe,
traga depressa
a luz extinta
da infância,
o pavio atiçado
de luz
sem esquivança,
que nunca se viu

em tão claro dia,

CANÇÃO DE ÁRION






DA MINHA ANTOLOGIA PESSOAL

CANÇÃO DE ÁRION
Se esta é a hora,
certamente outra não haverá
até a consumação dos dias.
Quando haverá um pranto
como este?
Quando meu corpo será repartido
Pelas bocas noturnas?

Enfraquece a carne, não morre a lira.
Deixa-me cantar.

Pousam nos seus olhos piracemas de
ouro,
pássaros em bando o recebem
como uma canção de plumas.
Certamente não haverá outra
Conjunção propicia,
Nem tanta dor junta derramando.

Daixa me cantar.

Deixa-me cantar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CHEGUEI COM A CABEÇA PENDIDA/ Aidenor Aires





De minha antologia pessoal


  
Cheguei com a cabeça pendida

Cheguei com a cabeça pendida.
Flor decepada do mundo.
Cintilância do aprendizado para o abismo.
Orfeu irregressado, trouxe ainda sob as axilas cansadas,
o fardo do poema.

Aos deuses, ergo minha libação.
Aos deuses, que me fizeram rouxinol.
Subtraio-me disperso
e devolvo a canção que evola de minha carne,
das aras em cinzas,
e já ninguém comove.

Devolvo a todo o belo
o que, veloz, em mim brilhou
sem pressa
do sonho de cantar e ser completo.


UM POEMA DE ÍTALO CAMPOS


Da série: Poemas não publicados (veis)

   DA VARANDA



Ítalo Campos.
Marataízes, a 40 Km
Se avista d´aqui.



Como procissão, os vagalumes da cidade
Pirilampam num cortejo de festa
À rainha da noite.
Vejo o mar inquieto e sonante
A enviar para a praia as impurezas do dia e
Carregar para si meus sonhos.
O mar é salgado das lágrimas
Das mulheres de Anchieta e Lisboa
Pois o mar não está mais para peixes
E descobertas.
Oh, o mar que separa e une,
Reúne e atravessa.
Antes do mar avisto telhados curvos
Abrigando dor e saudades,
Quem sabe algum amor.
Sobre eles, o pára-raio e as palhas.
As palhas em balanço de guardar.
Sons do universo em voz de vento
Trança palhas em movimento.
Avisto pára-raio estático pronto
Para a tormenta.
Eu,
Eu que a natureza observo, amoroso,
Não tenho retorno, nenhum sinal,
Nenhum conforto em minha solidão
E dor. Existencial!
A noite segue longa gotejando
A breve vida inteira.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

NOITE NA TAVERNA OU NOITE NO BOTECO

NOITE NA TAVERNA OU NOITE NO BOTECO
Ercília Macedo-Eckel
Para Luiz de Aquino
Uma Noite do Século XXI
Estamos na Praça da Cirrose, Boteco Bate-Papo, do Hamilton, no Setor Oeste, Goiânia. Criamos aqui uma roda literária acompanhada de petiscos e muita caipirosca. E não há como fugir das músicas interpretadas por duplas sertanejas goianas, para a tristeza de alguns de nosso grupo.
Depositamos nossos celulares numa cesta e, depois de algumas doses e conversas leves sobre musas, últimas leituras, etc., chegamos à morbidez dos assuntos políticos, da corrupção e outras mazelas que assolam o Brasil e o mundo: barbárie nos presídios - o quarto poder no país - Estados em falência, cheios de “elefantes brancos”, acidentes trágicos, soterramentos, aguaceiro, epidemias e surtos diversos. Finalmente, discutimos a degradação da política e dos costumes americanos na pessoa egocêntrica e narcisista do presidente Trump, recém-empossado. Agora, correm na mesa espetos de contrafilé, travessas de feijão tropeiro e de mandioca. E mais goles de caipirosca, antes das falas e reflexões de cada personagem sobre literatura.
Gabriel Ene
Nos últimos dias tem havido uma polêmica nas redes sociais sobre “literatura de boteco”. Seria a nossa, pejorativamente? Quem me ajudaria, aqui, a melhor conceituar ”alta literatura”, a formar o cânone dos supremos escritores-modelo, o arquétipo do bom gosto? Não me refiro ao “cânone didático” tão odiado pelos estudantes de nosso país e do qual muitas vezes fiz parte. Mas sim às várias listas propostas por escritores-críticos de renome internacional que visavam e visam à comparação e à análise de tudo o que fora escrito antes, preferencialmente desde Homero. Acredito, Miguel, que, nesse contexto, os afortunados leitores-críticos serão capazes de distinguir “literatura de boteco” de “alta literatura”. O problema é a carência de leitura por aqui.
Miguel Jota
Verdade, amigo! Sei as regras do jogo literário. Além de seu sentido lúdico, ativa a imaginação, a criatividade, como nosso jogo de bilhar nessa mesa. Minha maior preocupação é para que a bola-capítulo não se suicide e seja deletada, sepultada na lixeira. Daí minha diversidade: do campo das artes plásticas ao palco, do palco à literatura, como formas de driblar a realidade, “promovendo delírios, feito febre” nas “Copas e nas Cópulas”. Selma, os amantes dos bons escribas deveriam conhecer “Altas Literaturas”, de Leyla Perrone-Moisés, a fim de aprofundarem seus julgamentos de valor. Pois o melhor crítico é aquele que também cria textos. Quem cultiva jabuticaba fala melhor sobre jabuticaba, não é mesmo?
Selma
Peça aquela rabada ao molho. Dizem que é a melhor da cidade.
Conheço essa obra de Leyla Perrone e concordo com o que você acabou de dizer. E acrescentaria que o bom crítico analisa e discute o poema, o texto; não o poeta-autor, o escritor. Podemos considerar, ainda, que a diferença não está entre os vários conceitos de cultura, mas entre a “cultura e a descultura” de quem escreve e de quem julga o texto. E que há também o silêncio diante das grandes ( ou medíocres) obras de arte. Pois gritos, falatórios e ofenças ameaçam a literatura e o ato de criação, não é Mestre?
Jota Fernandes
Isso mesmo e mais: precisamos dessacralizar a literatura, levá-la aos botecos, torná-la profana, exposta. Isto é, abrir caminhos para produções emergentes e não canônicas. E, para julgá-las, melhor seria nos submetermos à categoria do escritor-crítico, aquele que, além de publicar suas obras – também faz crítica literária – depois de saber “tudo o que é, foi e será” até chegar ao Paraíso de um sábio julgamento. Concorda, Augustinha?
Augustinha
Sim, Mestre. Essa abrangência nos permitiria uma leitura comparativa dos temas, no tempo e no espaço, entre as diversas classes de escritores com os quais podemos aprender e apreciar vários aspectos da criação literária.
No Brasil temos uma deficiência séria, como já foi dito aqui. Mal lemos e escrevemos em nossa própria língua, diferentemente de países europeus, por exemplo, nos quais o escritor e leitor são fluentes em mais de uma língua. O conhecimento e a erudição vêm depois da leitura e da escrita ingênuas. Chegam com o tempo, a experiência e deixam para a posteridade a língua melhorada. Até mesmo aquele tipo de linguagem utilizada por um “escritor de boteco”, não é mesmo, Luís?
Luís
Deixe-me, antes, tomar um gole de caipirosca. Esse é para o santo...
Tenho refletido muito sobre isso nos últimos dias e cheguei à seguinte conclusão:
Se sou “escritor de boteco”, devo submeter-me à crítica sociológica, que tem como ponto de partida a expressão cultural e civilizatória de um povo, no caso os goianos, nas diversas fases do desenvolvimento desse tema (“literatura de boteco”) nas obras publicadas em Goiás. Isso, porque deve haver uma interação escritor-sociedade, ligada aos problemas de seu grupo; à língua, que é uma instituição coletiva; à mensagem e texto produzido, que devem ser de interesse do leitor, o qual vive os mesmos problemas políticos, sociais, financeiros, religiosos e éticos do autor. Dessa forma, percebemos que há uma pluralidade de enquadamentos na produção e leitura do texto literário, sendo o leitor um co-produtor, caso tenha a capacidade de captar-lhe o sentido.
Pessoal, nossa noite avança, chega a madrugada misteriosa, de anjos e demônios, bandidos. Cadê a saideira?
O Último Gole
Já estamos enxergando Dionísio com uma jarra transparente, cheia de vinho tinto: entre luz e trevas. Nossa máscara cai diante da epifania divina. Todos falamos ao mesmo tempo, num diálogo dramático. Impossível um fruidor que nos entenda, pois, nesse momento, retratamos uma sociedade fragmentada, egoísta, despótica, cuja língua se dispersa em confusão babélica, conforme as condições de sua produção no aqui e agora dessa saideira.
E quem se livra desse diálogo teatral? Praticamente todos falam ao mesmo tempo, perdem o foco, fogem do assunto, fazem digressões repetitivas e dificilmente aceitam o desvio.
Os mais alterados em suas falas já esperam um parente ou amigo, a fim de levá-los de volta para casa. De resto é só monólogo interior e, como nos mistérios gregos, entraremos em contato direto com o Outro-Mundo, aquele dos deuses.
Então até, leitores.
www.erciliamacedoescritora.com.br




PREMIO NOBEL PARA GABRIEL LNASCENTE
                                                                                Aidenor Aires*



Muita coisa se passou depois de janeiro de 1950, data em que emergiu e ganhou passos o poeta Gabriel Nascente. Nosso encontro se deu, pela primeira vez, por volta de 1958/59. Em 1958 havia falecido seu pai, Antônio Estrela Nascente, o Tonico Nascente, prematuramente, com apenas 36 anos de idade, deixando viúva D. Antônia Barbosa Nascente, com uma prole de Sete filhos, sendo Gabriel o quaro entre eles.  Mudaram-se, por algum tempo, para a Vila Nova, onde eu já vivia. Ali nos conhecemos ainda crianças. Hoje, ao completar 67 anos, o menino da rua 74, no antigo Bairro Popular, carrega na estrutura frágil e no olhar sempre ébrio de metáforas o luminoso peso de 50 anos, quase a vida inteira, de poesia. Haveria muito que falar de nosso reencontro e convivência nesse hiato de tempo, ou hiato de nossas vidas paralelas. Mas isto é assunto exorbitante para o mero registro que faço a pretexto da efeméride.  Desde o ano de 1964, nos corredores da ilustre Escola Técnica Federal de Goiás, herdeira da antiga Escola de Aprendizes e Artífices da Cidade de Goiás, até o dia de hoje, Gabriel não viveu um dia sequer sem poesia. Recordo-me de um dia, naquele ano aziago para o Brasil (64), que Gabriel nascente, após assistir a um espetáculo no anfiteatro da escola, se empolgou com a performance da trupe, principalmente com seus monólogos poéticos com temas contemporâneos enfocando os problemas do país, naqueles dias nervosos que antecediam o golpe de 1964. No dia seguinte, Gabriel, que vivia um início de adolescência conflitado e inquieto, apareceu na sala de aula com os rabiscos de um texto denominado Nordeste, sombra dos monólogos que presenciara na peça exibida no auditório da Escola. Pôs-se logo a recitar seu texto de intenção fortemente dramática, vociferando contra as mazelas do Nordeste, assunto muito em voga: seca, fome, severinos, carcarás, migração, etc. O diferencial era que, ao declamar o texto trágico, o poeta nascente, sem trocadilhos, exibia simiologia cômica, gestos grotescos, expressões faciais histriônicas que espantavam o pequeno auditório de sua sala de aula. A reação momentânea foi explosões de gargalhadas, aplausos e uivos da turba adolescente. A partir daí o menino que vivia correndo de bicicleta, comprando uma espingarda para atirar no bosque do Botafogo, construindo submarino para imergir nas águas do ainda limpo e piscoso Meia Ponte, subindo nos telhados do Bairro Popular e frequentando diariamente o departamento de orientação educacional e psicologia da escola, passou a dedicar-se à produção de poemas. Tinha muito próximos, este depoente que já rabiscava alguns versos e declamava os longos poemas de Castro Alves, Eduardo Jordão, um estranho mulato que também escrevia versos manquitolantes, apodado por Gabriel de “Touro”; além de professores intelectuais, como Bernardo Élis, José Lopes Rodrigues, Geraldo da Paixão, Jorge Félix de Sousa, Edmar Fleury, o orador espírita Niso Prego, professoras Maria da Cunha, Gilka Machado, lembrando apenas alguns. Na tipografia da escola descobriu o livro Primeira Chuva, de Bernardo Élis, Pássaro de Pedra e A Poesia em Goiás de Gilberto M. Teles, Contos para Ler de Pé, de Eduardo Jordão, Tardes do Nada de Edir Guerra Malagoni e a obra inaugural de Yêda Schmaltz, Caminhos de Mim. Nesse ambiente de efervescência política e cultural, Gabriel abraçou integralmente o partido da poesia. Dia e noite lia, escrevia e fazia contatos com escritores que ponteavam a cena goiana, indo dos consagrados aos emergentes do Grupo de escritores Novos, o GEN. A lavoura poética que iniciara em 1964, já havia produzido, no início de 1965, o opúsculo Os Gatos, trazendo apresentações de Bernardo Élis e Jesus Barros Boquady. Desde o insight inicial, o poeta não mais deu sossego a ninguém em constante furor poético e inadaptação à disciplina escolar. Submetido a exames psicotécnicos e psicológicos, o furor poético de Gabriel punha em pânico sua mãe, D. Antônia, e os orientadores e dirigentes da escola. O aparente desequilíbrio mental do poeta, frente ao que se entendia por normalidade, levou a escola, inspirada pelo professor Geraldo da Paixão, a encaminhá-lo a um profissional da psiquiatria conceituado em Goiânia. Após consultas, oitivas e procedimentos de sua ciência, o facultativo exarou peremptório: Não tem doença mental, nem transtorno psíquico. É poesia mesmo. Isto não tem remédio”.  A palavra do médico representou o habeas corpus, a ordem de soltura para o poeta e sua arte. Olhando o horizonte precluso de 50 anos vejo que Gabriel não envelheceu. Parece que seu corpo com apetite de passarinho foi ficando menor, mais frágil como maneira de acolher o menino, o arco da lira plangendo os vagidos da infância que não deixam de afligir a insônia do mundo. São mais de cinquenta livros, numa cascata crescente de indisciplina formal e saraivadas de símiles, polissemias, animismos, metonímias, hipérboles e metáforas. A vida escorre em pura linguagem. Em todo o discurso, o peso das longas interjeições e aflitas interrogações. É uma fala incansável de descobertas e espantos. Linguagem de pouca alegria e muito sofrimento. Sem poder ser outra coisa, esgota-se em pura poesia. Os problemas do mundo, o sofrimento dos homens, as perdas da infância permanente, as paisagens, as cidades e os amores estão sempre aí, na sua palavra de inflamação enferma, captados de uma forma mediúnica, abraçam uma realidade para além do real, ou cria um real arquetípico, num tempo de total isenção, e impertencível. Suas intensas leituras de inúmeros autores marcam aqui e ali, o mapa das influências confessáveis que alimentam o caudal de sua criação. No fundo, porém, de sua floresta de signos vão se debatendo plangentes significados e busca da forma visível de sua expressão. Canta a liberdade total, uma quase escrita automática que expõe, depõe, exalta e demole parâmetros lógicos, estéticos e técnicos da elaboração poética. Amado, admirado e, não raro discriminado, punido em sua poesia por ser quem é, o poeta assombra e enche de luminoso talento nossa época sem valia. Sua sensibilidade porosa absorve e transfigura as aflições do mundo e dos homens. Transmite, numa compreensão simbólica a descrença, o horror, o predomínio do mal e da insensibilidade, a falência do sonho humano.  Mais de cinquenta livros atestam sua permanente insatisfação, como se dissesse que não basta um poema, nem dez, nem cem, nem mil poemas. É necessário um rio, um oceano, uma galáxia de poemas dirigidos talvez a leitores do futuro. Gabriel ultrapassa, por sua estranheza, o conceito acadêmico do poema e abre espaço para indagações multidisciplinares de sua produção. No veículo de sua vasta produção editada traz o testemunho avalista de grandes nomes da literatura contemporânea que, certamente não lhe dedicariam comentários e fartos elogios se sua obra não merecesse deles o inteligente acatamento. Nem merecia ele os prêmios que arrebanhou. Gabriel nestes cinquenta anos de cantos e jeremiadas eleva a poesia ao patamar de ofício divino, como sempre fizeram, os vates e aedos. Por tudo isso, só podemos compreender sua poesia como mistério e sua voz como profecia.  Mesmo que ainda torçam o nariz para sua figura frágil com ar de desamparo, mesmo que não chegue à Academia Brasileira de Letras, Gabriel merece o Prêmio Nobel. Não há no Brasil, nem na literatura conhecida uma voz tão autêntica, tão pura e original a noticiar o drama do homem, no que tem de local, contemporâneo, globalizante e universal.  Celebro beleza de sua poesia. Celebro a riqueza e o encanto de sua obra.  Conclamo as inteligências e as instituições culturais e políticas de Goiás, como homenagem lídima, nas comemorações desse meio século de inspiração e canto, a indicação de seu nome para o próximo Prêmio Nobel de literatura.  Isto honra o poeta. Isto honra nossa terra e nosso tempo.



·         Aidenor Aires – escritor, membro da Academia Goiana de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.