domingo, 1 de outubro de 2017

FLORES DO CERRADO


FLORES DO CERRADO
                           Aidenor Aires


Vida breve. Emoção roubada aos deuses. Padecem da dor imensurável da eternidade, eles. Nós, os que vamos morrer, podemos saudar esses lampejos, esses retalhos da permanência. Felizes de quase nada. Não digo do poeta, faminto de dias e horizontes. Paro e contemplo a natureza generosa que golpeia sem saber o rio do tempo, acendendo reflexos, cascatas, sombras, corpos boiando e retalhados reflexos de céu e sol. Vaga permanência. Na sequidão extensa do planalto, venham ver a sangria luminosa e exasperada da floração. Nem meus olhos, nem meus sentimentos, nem meu possível coração e seus estigmas pode suportar a abundância da beleza derramada na luminosa paleta do cerrado. Chega a ser injustiça, ou divina covardia. Como suportar o ipê roxo, de mística chaga, estender o seu quaresmal pálio sobre a mata decídua? Quer doer para além dos olhos. Pobre e estreito olhar. Quer ficar, passageiro, denso na lembrança. E quando vai espalhando no vento suas últimas pétalas bailarinas, parece provocação, um desafio ao irmão de juba amarela que estraçalha em ouro o ar pesado, o céu plúmbeo, ar do escaldado agosto. São apenas exemplares de luz sobreviventes, escapos aos machados, às motosserras, aos tratores. Gritam suas flores sobre tocos, leirões e arados, na ânsia de logo espalhar sementes que aspirarão iludir a morte e germinar para improváveis florestas do futuro. E mais que acenos agitados pelo vento geral, a intensidade amarela dessa florada, especialmente, são gritos, esgares que mancham o cerrado numa agonia anunciada. Fraquejo. Com toda minha escolaridade de pena e sofrimento coloco-me de joelhos frente a esta divindade singela. Deploro e me ponho a carpir, não os que hoje florescem, mas aqueles que não nascerão e não serão admitidos no dia possível de florescer. Bastaria minha lágrima, meu suspirar de pobre palavra e muita pena, não fosse a sucessão alvinitente das copas nevadas dos ipês brancos. Benzem, angelicais e núbeis, cerros ásperos, cerrados avermelhados, chãos calcinados de concreto e alcatrão. Apenas genuflexo, rente à terá, pode-se olhar, chamar e recolher este esplendor de alvura, inconcebível em terra tão sáfara de homens tão duros e amargos. Somente aí se esgota nossa sede de beleza e encantamento. Seria necessário, para não esquecer, olhar apenas o chão de avermelhado corpo, de desolada pele, de desertificado coração. Mas as árvores que amam a morte, porque sangram, parturientes, para o advento das sementes, e não confiam nas promessas dos verões e das primaveras, expõem suas estratégias vitais. Somente quem acompanhou o clamor dessas árvores cerratenses pode sentir, como um epílogo cantante da sinfonia vegetal, o estuar simultâneo da flor carmim do cega-machado e aquelas desenhadas em cabeleiras de amarelo sépia do feijão cru. Desapercebidas entre outras árvores, insignificantes durante todo o ano na paisagem, num repente, exibem seu estandarte de flores, num ritual que nasce e corre pelas seivas, desde as profundas raízes. Nelas não são galhos, mais subterrâneos nervos e raízes que florescem.  Pondero que essas flores são milagres fugidios. Ambicioso, talvez egoísta, anseio estar aqui ainda no próximo agosto, contradizendo a vocação de morte que escurece o mundo. Virei para celebrar esse milagre estupendo que, descuidados, ímpios deuses deixaram, perdulários, se espalhar em desperdício de luz pelo cerrado.

06/09/2017


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